Origem: http://www.drauziovarella.com.br/entrevistas/artrite2.asp
Dr. Isidio Calich é médico reumatologista e professor na Universidade São Paulo e é entrevistado pelo Dr. Drauzio Varella:
Drauzio – Quais são os tipos de artrites mais freqüentes na infância e quando os pais devem desconfiar de que a criança apresenta esse problema?
Calich – As crianças podem apresentar algum tipo de artrite principalmente a partir dos três anos. A artrite reumatóide, por exemplo, é uma doença com evolução muito parecida nas crianças e nos adultos. Ela provoca inflamação nas articulações das mãos, joelhos e pés e pode progredir para deformidades em qualquer faixa etária.
A febre reumática chamada no passado de artrite ou reumatismo infeccioso é outra doença bastante referida na infância. Depois de mais ou menos dez dias de a criança ter tido uma infecção de garganta, suas juntas inflamam e tornam-se extremamente dolorosas. A febre, que era alta no início, fica mais leve ou desaparece e, em alguns casos, pode ocorrer um comprometimento cardíaco característico da febre reumática.
Drauzio – Quais as características da febre reumática e que articulações acomete?
Calich – Ao contrário da artrite reumatóide que acomete mais as pequenas articulações das mãos e dos pés, a febre reumática acomete principalmente as grandes articulações (joelho, punho, cotovelo, ombro, quadril, tornozelo). A dor não é localizada: migra de uma articulação para outra e há o risco de a doença atingir o coração.
Algumas crianças não têm o acometimento das articulações – o que torna o diagnóstico mais difícil – mas têm as complicações cardíacas, que podem passar despercebidas. Acredita-se que a criança teve uma dor de garganta que desapareceu em alguns dias sem ter deixado seqüelas. Anos depois, porém, é detectado um sopro indicativo do comprometimento de uma válvula do coração provocado pela febre reumática e que não foi diagnosticado na época por falta do acometimento das articulações.
Drauzio – Está aí um sério problema de saúde pública. Infecções de garganta são comuns em crianças e podem ser provocadas por um simples resfriado, uma gripe, por viroses nas vias aéreas e por bactérias. Quando existem placas de pus na garganta, sinal de infecção bacteriana, é necessário adotar medidas mais radicais. Muitas mães se incomodam com a indicação de antibióticos nesses casos, uma vez que pode levar mais tempo, mas algumas amidalites curam sozinhas. Qual é a conduta indicada nessas situações?
Calich – Se do ponto de vista clínico há suspeita de uma doença bacteriana, mesmo sem o respaldo de exames de laboratório, deve-se tratar a infecção de garganta com antibiótico.
Em relação à febre reumática, como só 3% das crianças desenvolvem a doença, o pediatra tem experiência para saber se a infecção de garganta demanda tratamento imediato ou deve ser observada por mais tempo. No entanto, caso a criança já tenha desenvolvido um episódio de febre reumática, o antibiótico deve ser prescrito precocemente, pois uma infecção causada por estreptococos pode desencadear novos surtos da doença e aumentar a possibilidade de ocorrer lesão cardíaca.
Drauzio – Fiz essa pergunta porque houve uma campanha do Ministério da Saúde para se tratar infecções purulentas de amídalas rapidamente com antibióticos a fim de evitar que esses 3% de crianças contraíssem uma lesão cardíaca, uma vez que, em termos populacionais, no Brasil, esse índice representa um número alto de pacientes que precisarão colocar válvulas cardíacas mais tarde.
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